terça-feira, 22 de novembro de 2022

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

domingo, 20 de novembro de 2022

Waly Salomão - Fábrica do poema

FÁBRICA DO POEMA

In memoria de Donna Lina Bo Bardi



sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite das pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo a fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbado
pelo mingau de almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.
sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afunda no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão-chave é
sob que máscara retornará o recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até a escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
onde já se encontra escrito
que a palavra “recalcado” é uma expressão
por demais definia, de sintomatologia cerrada:
assim numa operação de supressão mágica
vou rasurá-la daqui do poema.)

pois a questão-chave é:
sob que máscara retornará?


Waly Salomão

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

mãos

antes de a poesia acabar, falarei das tuas mãos

um minuto antes de a poesia acabar, haverá ainda um minuto para passear com as palavras conversando sobre tuas mãos

de mãos dadas, as palavras e eu, que não há de haver melhor forma de fazer poema sobre tuas mãos que dar as mãos às próprias palavras

e tratar do tato

e tatear

todas as sensações que a tua palavra mão acrescenta à base da minha coluna, já quando de olhos fechados

já quando de relógio parado

nesse minuto

de mãos e poesia e final de mundo

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Guimarães Rosa

(...) Amor é a gente querer se abraçar com um pássaro que voa.
— Guimarães Rosa

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Florbela Espanca ( Escreve-me)

Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!
Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!
"Amo-te!" Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então...brandas...serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...

Florbela Espanca ( Escreve-me)

domingo, 13 de novembro de 2022

sábado, 12 de novembro de 2022