leio teu horóscopo
meu futuro
fundo da caneca de café
fé
no fundo
do peito
ziguezagueando
em plena quarta-feira
leio teu horóscopo
meu futuro
fundo da caneca de café
fé
no fundo
do peito
ziguezagueando
em plena quarta-feira
em que verso te encontro? se nessa ou se naquela esquina... naquele livro, trilha sonora encantada... verdade que te procuro e te acho em cada poema que escrevo... que te escrevo ou me escrevo? imagine um beijo, duas bocas que partilham um universo... te escrever é me escrever
sou versado em adorar teu tornozelo, e só hoje me ocorreu esse uso para verso... se pego o jeito da coisa, versar-me sobre teu tornozelo, viro o bichão da cara preta no tema, consigo virar o próprio verso? e, se pego o jeito, pego também teu tornozelo?
e falar contigo como falo com minha gata, em dialeto de Caetano, em tom de delírio, abraçando cada palavra, ninando cada sílaba
ó divindade da palavra, alfabética santidade, chove sobre meu telhado, ó tempestade de sonho, raspa meu teclado, desagua em sopros de mil reticências, cambaleia em tatos de cem mil suspiros, ó senhora dos assombros, desaba sobre os meus escombros, pavimenta meus percalços, percebe os meu desejos, oração de um só verso: ela
e quem, em sã consciência, pensa cotovelos alheios, antes do desjejum e antes de dormir? mas quem é que tem sã consciência?
e o domingo ronrona, mas não... é minha gata, que enfrenta a noite voraz a meu lado... um ronron pode salvar um domingo
"Com a poesia eu habito a casa da possibilidade. A poesia tem mais portas e Janelas que a casa da razão."
Emily Dickinson
e te busco na rabiola da palavra, no caroço da pitomba, no biscoito da sorte chinês, na minha vez, de desejar, desde já, ser eu o cadarço do teu sapato, a pausa pro café da quarta-feira, o terço da tua fé, o sonho do teu cochilo , o tema do teu cochicho, e, se eu bicho, o dono do teu colo...
nunca te pedi nada, salvo dois dedos, de prosa, e a mão, e uma volta do ponteiro dos segundos, das minhas intenções, que apontam, como bússola, pro teu calcanhar, dos minutos, gastos e gastos, via suspiro, esticados até o amanhecer, das horas, que ainda não inventaram um ponteiro para dias, nem para anos, e quiçá minha grande invenção para a humanidade venha ser um ponteiro que aponta para a eternidade, só pra eu ficar mirando teu nariz
Sai, e olha a Lua, como promessa de noite sem teto, como amor com testemunha, como poema que não carece de ensaio, como convite, como presente, como futuro, como lembrança de palavra de Drummond, como céu de Brasília, como sussurro que chega com a brisa, como início de maio
labuto a palavra, centímetro por centímetro, distância pro teu calcanhar, de vogal em vogal, meus ais viram eis
toda vez, alvoroço, caroço de seriguela, é ela, e meu coração goela acima, a rima que me falta, a falta que me sobra...
cada vez, alvorecer, caroço de pitomba, a bomba que bombeia meu sangue, e explode em verso, e sonha, e sonha, e sonha...
dia de anos, céu de horizonte, Sol de pintura, pura, vontade de desenhar, no ar, tua cintura, em cada canto da cidade
prefiro pensar tua cintura, tecer palavras no ar, torcer o relógio, até pingar minutos de boca-aberta, prefiro trilhar a noite, em setas de direção torta, apontar pro teu nariz e encontrar meu sentido, direção do meu desejo, prefiro desejar tua orelha, ouvir trombetas celestiais, escutar tua voz bem de pertinho... prefiro preencher reticências em tarde de domingo
Estação de caqui e eu caquisado, manhã, tarde e noite... gosto tanto de caqui, quase tanto quanto do teu nariz
De baixo pra cima, vejo o mundo, feito joaninha olhando o limoeiro... mas meu limoeiro é teu joelho, meu mundo, meu tabuleiro de jogo da vida, meu dicionário de desejos
“As pessoas só ficam realmente interessantes quando começam a sacudir as grades de suas gaiolas”.
Alain de Botton