quinta-feira, 22 de outubro de 2026

André Giusti

POEMA APARENTEMENTE SUJO PARA ALMAS LAVADAS
Eu não acredito na poesia
inseminada in vitro
na poesia
asséptica curvada lisa fria
feito Madona talhada no marfim.
Não acredito no poeta
que se esfalfa se torce pena sua
não para cuspir na cara do mundo mau da hipocrisia,
mas para que sejam suas as graças da patota
da academia
as páginas da antologia
a menção nas teses sonolentas que ninguém que ame lua cheia
ou faça sexo sem nojo terá.
Eu só acredito na poesia que é vômito na madrugada em cima
dos postes ancorados de bêbados
Que é escarro contaminado na emergência lotada da periferia
Que é sémen apressado despejado no banheiro público da rodoviária.
Eu só acredito em poemas escritos com sangue nas folhas brancas encardidas encontradas no chão engordurado do boteco que vende Marmitex a R$ 5,00 ao lado do puteiro.

André Giusti no Livro Os Filmes em que Morremos de Amor (editora Patuá, 2016)

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